CARTAS A MINHA FILHA II

Primavera, Escrever, Comunicar Se

Querida filha,

ontem foi Natal. O dia foi agitado, cheio de atividades, um entra e sai de gente aqui em casa o dia todo. Você sabe bem que eu não gosto do Natal. Não tenho uma ligação muito grande com este dia. Sempre fui meio avesso a essas comemorações, a essa agitação que considero falsa demais, comercial demais. Mas, mesmo não gostando, não há como não ter alguma participação nos arranjos da sua mãe. Ela, como você bem sabe, sempre gostou do Natal e se põe a fazer de um tudo para que todos se sintam bem. Coitada da sua mãe! Por mais que se esforce, a cada ano fica mais difícil manter todos reunidos, em casa. Na véspera, os seus irmãos saem, cada qual para um lado durante todo o dia, e só nos encontramos, mesmo, à noitinha, apenas para os cumprimentos que já estão ficando tão formais que destoam muito de como eram antigamente, na sua época conosco.

Eu até que entendo, pois na medida em que vão crescendo, os filhos vão mudando os interesses, ficando distantes de nós, cada dia mais. Mas a sua mãe não entende e eu sei que ela sente essa mudança. Mais, ainda, quando ela é levada para a casa da sua avó, Ju, onde a família dela se reúne sempre na tarde que antecede o dia de Natal. Aí, então, que não entende nada mesmo. Eu já não a acompanho há anos, desde que você nos deixou e ela adoeceu. Hoje, ela já não reclama mais mas eu sinto que ela ainda se ressente de ir apenas  com os seus irmãos. Eu não me sinto à vontade para participar dessas festas que fazem.

Também perdemos, aqui em casa, o costume de trocar presentes entre nós. Para dizer a verdade, o nosso Natal é muito sem graça. Não nos toca o apelo comercial tão comum nesse período. O chamado “Espírito de Natal” tem passado longe de nós. Muito, acho, pela sua ausência. Desde que você se foi nós não comemoramos mais o Natal com a mesma a alegria de quando você estava aqui. Naquele tempo era diferente, eu me lembro.

O que fazemos hoje? Um almoço no dia de Natal que substitui a ceia da noite da véspera, com fazíamos no seu tempo. Uma carne especial, frutas, nozes, castanhas, refrigerantes. Sentamos com sua mãe e ficamos ali, comendo e conversando. Ah, eu me esquecia… sua irmã arma, todos os anos, uma pequena árvore que ela mesma enfeita. Esta é, na realidade, a única mostra de que estamos vivendo o Natal. Não, eu minto. Há, também, um enfeite na entrada de casa, na varanda, aquelas luzinhas que ficam piscando todo o tempo. Também arrumação da sua irmã. Confesso que fui eu quem comprou, num shopping onde fui fazer não sei lá o quê, mas apenas porque me lembrei de que ela iria gostar. Estava certo. Ela adorou e ficou muito feliz enquanto armava aquela coisa toda. Só que desligar, todas as noites, virou obrigação minha. Senão, ninguém se lembra de desligar.

O dia de Natal é um dia muito longo. Muito grande. Custa para terminar. Parece ter mais horas que os outros. E a noite, então, como custa a passar. Deve ser porque ficamos apenas eu e sua mãe acordados em casa, até mais tarde. Ela gosta de assistir na tv a missa papal. Eu fico assistindo um programa qualquer na sala, um filme, ou lendo, ou escrevendo, que já está virando mania ficar escrevendo à noite.

Vez por outra eu vou lá, no seu quarto, ver como ela está e a encontro emocionada. Ela ainda se emociona com a missa celebrada pelo Papa. Atualmente, as missas solenes celebradas pelo Papa no Natal começam mais cedo mas se estendem até mais tarde. Um pouco em razão do fuso horário mas, também, em razão da solenidade da qual se revestem. Sua mãe tem razão quando afirma que é uma festa muito bonita. A Praça de São Pedro e a Basílica repletas de gente. Concordo plenamente com ela, embora ache que é, sempre, muito triste. Como são tristes as festas cristãs! Haja sofrimento e haja dores! No fundo, bem no fundo, acabam nos impressionando.

Sabe, filha, por mais que eu não queira admitir, você me faz muita falta no Natal. Tenho certeza de que sua mãe e seus irmãos também sentem o mesmo. Quando olhamos uns aos outros, durante todo o dia, pensamos no quanto seria bom se estivesse conosco.

Sua mãe e os seus irmãos todos os anos participam de uma brincadeira de amigo oculto na casa de sua avó. Ela gosta de presentear e acaba dando presentes para todo mundo. Uma lembrancinha que guardamos com o maior carinho. Na realidade, ela é a amiga que não é nada oculta de todos nós. Até eu, que quase nunca vou lá, acabo ganhando alguma coisa para me lembrar. Como é carinhosa a sua avó! E como todos gostamos dela!

Os seus tios e primos também se empenham em fazer feliz a sua mãe e os seus irmãos. E ela, como você bem sabe, adora estar junto da mãe, dos irmãos e dos parentes.

É assim, filhinha, que o seu papai vive o dia de Natal.

Sempre a me lembrar de você, para sempre inesquecível em todos os nossos natais.

Beijos carinhosos e saudosos do

 papai.

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