O Damista

Conselho, Jogo, Jogo De Damas, Jogar

Eu tinha naquela época doze anos e passava a maior parte do meu tempo no salão de barbeiro do Zequita, bem ao lado da casa do meu avô, na Praça. Lá, eu engraxava os sapatos dos clientes. O salão tinha uma cadeira de engraxate completa, alta, de metal, duas gavetas grandes onde ficava guardado todo o material necessário para um bom brilho em qualquer tipo de sapato.

Ganhava uma porcentagem por número de pares engraxados, o que representava um valor em dinheiro suficiente para os meus gastos com bobagens. E a agarantia do ingresso nos domingos para ver os jogos do Esporte.

Quando não tinha sapatos para engraxar, jogava damas com o Zequita ou com qualquer pessoa que por lá aparecesse e quisesse uma partidinha. Havia bons jogadores e eu, embora com pouca idade, não fazia feio com nenhum deles.

Lembro-me de alguns que passavam pelo salão nos fins de semana: o doutor Humberto, Délcio, Moacyr Braga, Doutor Adair, Juracy Curtinhas, Bastinho, Sebastião Alfaiate, Getúlio, Cabo Bruno, Mestre, Merrinho, Pelé, Sebastião Pelé, Adolfinho, entre vários outros que tive a honra de enfrentar em partidas incríveis.

Além do salão do Zequita havia tabuleiros de damas também em outros locais, como o salão de barbeiro do seu João Morais, pai do Gessé e do Zé Morais, que também eram bons jogadores, no salão de festas do Tringolingo e no Clube Mutuense.

Os melhores jogos aconteciam sempre nos sábados, quando o salão de barbeiro do Zequita ficava cheio, com todas as cadeiras ocupadas, e nas manhãs de domingo, pois às tardes todos tinham compromisso com o Esporte cou com o Tringolingo, no campo de futebol da Rua da Praia. O Tringolingo era o Independente Futebol Clube, com sua camisa amarela como a da Seleção Brasileira. O Esporte Clube Mutum, o mais antigo e tradicional, tinha a camisa vermelha, como a do América do Rio de Janeiro. Tive o privilégio de jogar nos dois. Com o passar dos anos, foram unificados e prevaleceu o nome do mais antigo, o Esporte.

Voltemos ao Jogo de Damas.

Uma manhã, estava no salão quando chegou um senhor para engraxar os sapatos. Enquanto eu engraxava, ele olhava os jogadores com atenção. Era um senhor negro de uns cinquenta e poucos anos, risonho e simpático.

Terminou de engraxar e ficou ali perto da tabuleiro, sapeando. Sapo era como chamávamos o assistente que ficava do lado da gente quando a gente jogava, torcendo para um ou para o outro jogador e, às vezes, rindo de uma jogada errada ou até dando palpites quando pensava que havia uma jogada que nós, jogadores do momento, não havíamos percebido. Muitas vezes adotávamos o procedimento que chamaávamos de “enganar o sapo”, que era ver uma jogada clara e lógica e fazer uma outra, completamente inseperada, só para ver o “sapo chiar” e nos divertir como a sua frustração por não fazermos a jogada que ele esperava. Era um procedimento perigoso pois, no jogo de damas, não existem, para algumas jogadas, muitas possibilidades de variação sem que a gente se complique. Mas valia bem a pena provocar o sapo.

No caso em questão, do qual estou me lembrando e relatando, o senhor cujos sapatos eu engraxara, não era um sapo chato. Esteve durante todo o tempo apenas observando o jogo com olhar atento, sem nem balançar a cabeça quando uma jogada ou outra provocava a agitação dos sapos.

Quando o tabuleiro ficou livre, ele se sentou e perguntou com quem poderia jogar uma partidinha. Logo o Zequita olhou para a cadeira de engraxate e vendo que eu não estava engraxando, disse que eu sabia jogar e me fez um sinal para aceitar o jogo.

Lembro que os sapos já haviam saído e que começamos a jogar com o salão vazio. Nossas primeiras partidas foram pau a pau, sendo decididas sempre nas jogadas finais. Depois, comecei a perder sempre, de forma cada vez mais fácil. Por mais que eu tentasse resistir, não conseguia. Então, eu disse que não tinha mais jeito, que eu não conseguia mas endurecer o jogo. Então o senhor começou a falar, elogiando a minha forma de jogar e tentando me estimular. E se apresentou.

Ele se chamava Messias, era fncionário dos Correios em Juiz de Fora, estava em Mutum apenas para um serviço especial de verificação de linha e disputava, sempre, o Campeonato Brasileiro  de Damas. Elogiou mais uma vez o meu jogo e, abrindo uma pasta que levava consigo, nos mostrou alguns recortes de jornais com relatos de Torneios e Campeonatos dos quais já participara em vários locais do Brasil, sempre com grande destaque. Ele era disparado melhor que todos nós. Então, interessou-se em saber onde e como eu aprendera a jogar Damas.

Disse-lhe que aprendera com o meu Tio Levy, com quem jogava Dama e Xadrez quando ia nos visitar, em períodos de férias.

O Senhor Messias deu uma risadinha e me disse que não era aquilo que estava perguntando. Quando eu me mostrei desentendido, ele me explicou que, no início das nossas partidas, eu realmente havia jogado de uma forma atrevida e tão segura que ele ficara surpreso e teve que se dedicar muito para me vencer. Mas que foi, aos poucos, estudando o meu jogo e logo logo não teve mais nenhuma dificuldade em me dominar e vencer. Depois, ele me perguntou se eu lia o Correio da Manhã, um jornal famoso da época. Eu disse que sim e ele me perguntou se eu conhecia O Damista, o que eu confirmei.

O Damista era uma seção do Correio da Manhã que trazia o desenho de um tabuleiro de Damas e um tabuleiro de Xadrez, com jogadas para serem estudadas e decoradas, sempre preparadas por alguns dos melhores damistas e enxadristas do Brasil. Eu tinha por costume cortar e colecionar essas jogadas e usá-las contra os meus adversários quando jogava no Salão do Zequita.

O Senhor Messias me perguntou se eu tinha guardado alguns desses recortes e eu, prontamente, corrí lá em casa, que era do lado do Salão, para buscar e mostrar a ele.

Deu-me então as esplicações para o meu desempenho tão irregular, forte no inicio das primeiras partidas e tão fraco nas partidas finais.

Dentre os meus recortes haviam lances de partidas que eu usara que tinham sido, para a minha grande surpresa, preparadas e enviadas por alguém que assinava M alguma coisa, ou melhor Messias de tal, o próprio que eu enfrentara. E que passou a me dar uma indescritível lavada no tabuleiro de damas assim que identificou, nas minhas jogadas, as suas dicas dadas no Damista. Que eu recortava, estudava e usava nas minhas partidas contra os meus adversários no Salão do Zequita.

Encontrei-me com o Senhor Messias no outro dia, uma segunda-feira, pela manhã, nos Correios, onde eu era aprendiz de Telegrafista junto com o Antonio Silvério, o Pirulito, sobrinho do Bastinho e o Sebastião Curtinhas, sobrinho do Juracy.

Para que eu não desanimasse da lavada que tomara no salão, deu-me de presente um tabuleiro portátil, e vários conselhos de como melhorar o meu jogo, entre eles o de que deveria continuar lendo, recortando e estudando O Damista.

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