O Cântico de ana

Há muitos anos, em 1979, passei pelo maior desafio que já enfrentei em toda a minha vida: continuar a minha existência depois de perder, de maneira trágica, uma filha de cinco anos, Juliana. Morta em um acidente de trânsito, atropelada a dois quarteirões da nossa residência.

Como consequência mais forte, um ano depois, em 1980,  Ângela, minha espôsa, ficou hipertensa e foi vitimada por aneurisma cerebral, tornando-se paraplégica.

Considerei que as desgraças tinham sido excessivas e, na procura de um culpado, afastei-me de Deus, o único a quem pude atribuir as culpas pelo que eu estava passando. Não aceitava que, sabendo o quanto eu cria n’Ele,  e confiava no Seu poder, não tivesse sido defendido para que nada daquilo me acontecesse.

Nessa ocasião, quando os amigos rareiam, a família não mais aguentando presenciar o nosso sofrimento e ouvir as nossas lamúrias se distancia para que nos adaptemos a uma nova vida, sofrida, recebi a visita de uma pessoa que me presenteou com uma Bíblia. A minha reação foi fria. Pedi que a deixasse em um canto qualquer e assim ela fez, colocando-a aberta sobre uma estante, na sala.

Continuei por algum tempo o meu sofrer diário até que um dia, sem nenhum motivo especial, apanhei a Bíblia que estava já esquecida, e corri os olhos por ela. Estava aberta no Primeiro Livro de Reis ( I Reis). Tive a curiosidade despertada e li o Cântico de Ana (Capítulo 2 de I Reis).

“O meu coração exultou no Senhor, e a minha força foi exaltada no meu Deus: a minha boca se dilatou para responder a meus inimigos; porque me alegrei na salvação que vem de ti.

Não há santo, como é o Senhor: porque não há outro fora de ti, e nenhum tão forte como o nosso Deus.

Não queirais falar tanto, vangloriando-vos de coisas altas: não saia mais da vossa boca a antiga linguagem: porque Deus que tudo sabe é o Senhor, e para Ele se preparam os pensamentos.

O arco dos fortes se quebrou, e os fracos foram armados de força.

Os que antes estavam abundantes de bens, assalariaram-se para terem pão: e os famintos se fartaram, e até a estéril teve muitos filhos: e a que tinha muitos, se impossibilitou de os ter.

O SENHOR É O QUE TIRA A VIDA E A DÁ, LEVA À SEPULTURA E TIRA DELA.

O Senhor é o que empobrece e enriquece: ELE ABATE E ELEVA.

Levanta do pó ao necessitado, e do esterco eleva o pobre: para o fazer assentar entre os príncipes, e para lhe dar um trono de glória. Do Senhor pois são os polos da terra e sob re eles pôs o mundo.

Ele guardará os pés dos seus santos, e os ímpios ficarão mudos nas trevas: porque o homem não será forte na sua robustez.

Do Senhor tremerão seus inimigos: e Ele trovejará sobre eles dos céus: o Senhor julgará as extremidades da terra, e dará o império ao seu rei, e sublimará a glória do seu CRISTO.”

Hoje, cada vez que passo por momentos como aquele em que me despedi, pela última vez da minha querida, inocente, pura e linda filhinha, me lembro de algumas coisas que me fazem ficar de pé, novamente, e seguir em frente:

. nunca, mas nunca mesmo, vou esquecê-la e quero lembrá-la todos os dias que eu ainda viver.

.  o Senhor é que tira a vida e a dá, leva à sepultura e tira dela. É Ele que abate e eleva.

.  haverá, sempre, em algum lugar, alguém que precisa ainda da minha força porque está  mais enfraquecido que eu.

. O Senhor me abateu, mas irá novamente me elevar.

O Cântico de Ana foi capaz, sozinho, de recuperar, fazer renascer,  fortalecer e justificar a cada dia a minha fé, hoje inabalável, em Deus.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s