OS BEM-TE-VIS, O GAVIÃO DO JARDIM DO HOSPITAL VERA CRUZ E O MEU CORAÇÃO SAFENADO

Era começo de noite de 25 de maio de 2010 e havia entrado na van do Baeta na Praça Sete. Estávamos passando pela Praça Raul Soares quando a dor me pegou firme, forte, muito forte, assustadora. A principio, pensei que fosse resultante da minha Hérnia de Hiato, que quando  resolve doer dói de fato, incomodando muito mas passando com um pouco de tempo, após alguns arrotos. Mas não. Desta vez a dor estava diferente. Mais forte, mais fina, mais centrada no meio do peito.

 O que me assustou mesmo foi a sudorese, o suor frio que empapava a minha roupa. Suor frio significava algo mais sério. O coração, com toda a certeza. O que ficou constatado ainda naquela noite, no Hospital do IPSEMG, onde fui internado e encaminhado para a UCO.

 Nove dias de internação. Exames especializados, cateterismo no Hospital Luxemburgo e o diagnóstico: definição por  cirurgia cardíaca. Pontes de safena.  Indicação do Hospital Vera Cruz.  Alta hospitalar para aguardar em  casa. Um intervalo para conversar com a família, acertar as coisas e fazer exames pré-operatórios. Um caminhão de exames. E, sobretudo, um tempo para  reflexão e superação do medo que acomete toda pessoa em vias de operar o coração. Comigo não seria diferente.

Em 29 de junho as 10 horas dei entrada no Hospital Vera Cruz, sendo encaminhado ao quarto 304 da Enfermaria, onde já estava o Paul, um mestre cuca, aguardando para fazer uma cirurgia no joelho, o que aconteceu ainda naquele dia. A noite Paul teve alta e fiquei lá, sozinho, aguardando os preparativos para a cirurgia a ser feita no dia seguinte. O Adriano foi o meu acompanhante naquela noite. 

Na manhã de 29 de junho recebi três pontes de safena e uma mamária através de cirurgia feita pela equipe médica do Doutor Eduardo Rocha, acordando a tarde no CTI, entubado, assustado, não entendendo nada do que me acontecera, nem mesmo o que os meus filhos Adolfo, Zezé e Adriano faziam ali,  me observando. Três dias depois deixei o CTI e fui levado para a Enfermaria, de volta ao quarto 304 de onde saíra para ser operado.

Na primeira noite a companhia do Diego, um jovem que havia sido operado de apendicite aguda. Saiu no dia seguinte. Recebi, então, a companhia do senhor Amandio, funcionário da Escola Estadual “Barão de Macaúbas”,  que tinha feito uma angioplastia. Teve alta um dia depois, quando chegou o senhor  Dalmir, vindo do CTI, onde estivera por uns dias tratando de uma infecção pulmonar. Foi o meu companheiro por mais tempo que os demais. Policial já reformado. Bom companheiro. Bom de papo. Inteligente e otimista. Dono de uma fé em Deus inabalável. Tive alta e deixei o Vera Cruz antes dele.

Mas, e  onde entram os Bem-Te-Vis e o Gavião? Ah, sim,  os  Bem-Te-Vis entraram na história na minha primeira manhã de volta ao quarto 304, quando me acordaram cantando felizes, na árvore em  frente a minha janela.

Eu os vi, saltitantes, abanando as asas. O macho entoando seu canto trissilábico “bem-te-vi” enquanto a fêmea apenas fazia ecoar o “viiiiiiii”.

Durante várias vezes nos dois dias seguintes eu os vi lá, brincando na árvore, cantando, indo e vindo, sumindo e reaparecendo do nada. No espaço formado pela janela eu os via como que namorando, na certa construindo um ninho.

O  terceiro dia, amanheceu diferente, silencioso, quieto, faltando alguma coisa. Custei para entender. Os Bem-Te-Vis não apareceram, não cantaram, não brincaram, não namoraram.

 No céu, volteando sozinho, um Gavião, enorme, soberano, observava tudo  lá do alto, vez por outra dando um vôo rasante sobre a árvore onde deveriam estar os Bem-Te-Vis.

Procurei vê-los, inutilmente, no meu pequeno espaço de visão. Restou-m, para apreciar, apenas o vôo solitário daquele gavião que, por mais que eu tentasse entender, não deveria estar alí, ocupando sozinho aquele céu tão lindo, tão claro e tão azul, visto da janela do quarto 304 da Enfermaria do Hospital Vera Cruz. De onde, antes, eu via e ouvia um casal de enamorados e encantadores Bem-te-vis.

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