Arquivos Mensais: junho 2020

Operation Mutum – THE ORIGIN

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(Second Episode)

Mutum, contrary to what the name may suggest, is not one of those modern and overpopulated metropolis like São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte or Salvador, with which it only has similarity because it is also located in Brazil. On the contrary, it is a small city in the state of Minas Gerais, distant by highway some three hundred and a few kilometers from Belo Horizonte, the state capital, where the  people of Mutum come, the name given to those born in Mutum, when they want, as they say, to take A bath of civilization.

They just do not like, when they are in the capital, to be called inland people. And in this they are right, since Mutum, in fact, in a straight line, is no more than seventy or at most, eighty kilometers from the sea that bathes the back of the Holy Spirit. Mutum, therefore, is a more coastal city than Belo Horizonte. This, yes, a city of the interior. It was there, in Mutum, that I was raised.

My birth occurred days before my parents moved from the small village called Assaraí, belonging to the time to the neighboring municipality of Ipanema, where they lived, to another city, Aimorés, also near Mutum, where, they thought, life would be more Promising The district of Assaraí today belongs to the municipality of Pocrane. The municipality of Pocrane was separated from Ipanema municipality in 1948, to read as districts, and Assaraí, Figueira da Barra, Cachoeirão village and Taquaral Village.

To reach the town of Aimorés, where they were moving, they would have to pass through Mutum, where my grandparents lived, Olívio and Cotinha, my mother’s parents.

As I was told much later, when I understood myself, I, at the time of the change of my family, became ill, and at two months of age I was left at my grandparents’ house to take care of me until I could , After being cured, go to the company of my parents and my brothers. But none of this happened because I simply, after being cured, about six months old, refused to leave the company of my grandparents, demonstrating this through very convincing sobbing and tantrums.

My grandparents, in turn, reinforcing my desire to stay, did not want to give me back, promising to take care of me as if they were my parents. So I ended up staying and living with them for over twenty-two years.

Later, my parents finally moved to Mutum, where my mother became a state primary school teacher and my father City Hall clerk.

Even though I lived in the same city where my parents lived, I continued to live with my grandparents. I visited my parents at home every day. But I lived with my grandparents. I had a special way of addressing them. To my grandparents I called Father and Mother. My father was called Paiplício (he was called Simplício) and my mother called Mother (my mother was Geracy).

In Mutum I lived my childhood and my adolescence. I began my studies, and in the only college in the city in my time, I conclude the first and second degrees.

As a bookworm and eager to write, I soon became embroiled in the cream of local culture, made up of a privileged elite who had access to up-to-date information from all over the world.

I was always well informed and stocked with books, newspapers, and magazines to quench my hunger for reading. As a consequence, I was always involved in the creation of literary guilds and academic journals, which gave rise to my desire to one day be a journalist. So, before becoming what I am today, teacher, I ended up being a journalist, after moving to the Capital in 1969, where I remain residing until this year of 2016.

It was in Belo Horizonte, in 1975, that the events I am about to report reached me.

(Continues next week)

operação mutum – A ORIGEM

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(Episódio 2)

Mutum ao contrário do que o nome pode sugerir, não é nenhuma dessas metrópoles modernas e superpovoadas como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Salvador, com as quais só tem semelhança por estar, também, situada no Brasil. Pelo contrário, é uma pequena cidade de Minas Gerais, distante por rodovia uns trezentos e poucos quilômetros de Belo Horizonte, Capital do Estado, para onde acorrem os mutuenses, nome dado a quem nasce em Mutum, quando querem, como dizem por lá, tomar um banho de civilização.

 Só não gostam, quando estão na capital, de serem chamados de gente do interior. E nisto estão certos, uma vez que Mutum, na realidade, em linha reta, dista não mais de setenta ou, quando muito, oitenta quilômetros do mar que banha as costas do Espírito Santo. Mutum, portanto, é uma cidade mais litorânea que Belo Horizonte. Esta, sim, uma cidade do interior. Foi lá, em Mutum, que fui criado.

Meu nascimento ocorreu dias antes de os meus pais se mudarem do pequeno vilarejo chamado Assaraí, pertencente à época ao município vizinho de Ipanema, onde moravam, para outra cidade, Aimorés, também próxima de Mutum, onde, segundo pensavam, a vida lhes seria mais promissora. O distrito de Assaraí hoje pertence ao município de Pocrane. O município de Pocrane foi desmembrado do município de Ipanema em 1948, passando a ter, como distritos, além de Assaraí, Barra da Figueira, Vila de Cachoeirão e Vila de Taquaral.

Para chegarem à cidade de Aimorés, para onde estavam se mudando, teriam que passar por Mutum, onde moravam os meus avós, Olívio e Cotinha, pais de minha mãe.

 Segundo me disseram bem mais tarde, quando já me entendia por gente, eu, na época da mudança da minha família, adoeci e, com dois meses de idade, fui deixado na casa dos meus avós, para que cuidassem de mim até que eu pudesse, depois de curado, ir para a companhia dos meus pais e de meus irmãos. Só que nada disso aconteceu porque eu, simplesmente, depois de curado, com mais ou menos seis meses de idade, neguei-me a sair da companhia dos meus avós, demonstrando isso através de prantos e birras muito convincentes.

Os meus avós, por sua vez, reforçando a minha vontade de ficar, não me quiseram entregar de volta, prometendo cuidarem de mim como se fossem eles próprios os meus pais. Assim, acabei ficando e vivendo com eles por mais de vinte e dois anos.

Mais tarde, os meus pais mudaram-se em definitivo para Mutum, onde minha mãe tornou-se professora primária estadual e meu pai funcionário da Prefeitura Municipal.

 Mesmo morando na mesma cidade onde moravam os meus pais, continuei morando com os meus avós. Visitava os meus pais em sua casa todos os dias. Mas morava com os meus avós. Eu tinha uma forma especial de me dirigir a eles. Aos meus avós eu chamava de Pai e de Mãe. Ao meu pai chamava Paiplício (ele se chamava Simplício) e à minha mãe chamava Mãeoutra (a minha mãe foi Geracy).

Em Mutum vivi a minha infância e minha adolescência. Iniciei meus estudos e, no único colégio da cidade na minha época, conclui o primeiro e o segundo graus.

Como era devorador de livros e tinha ânsia de escrever, logo cedo me envolvi com a nata da cultura local, formada por uma elite privilegiada que tinha acesso às informações atualizadas, de toda parte do mundo.

 Estava sempre bem informado e abastecido de livros, jornais e revistas para saciar a minha fome de leitura. Como consequência, me via sempre envolvido na criação de grêmios literários e jornais acadêmicos, daí nascendo a minha vontade de um dia ser jornalista. Assim, antes de tornar-me o que sou hoje, professor, acabei, primeiramente, sendo jornalista, após mudar-me para a Capital, em 1969, onde permaneço residindo até este ano de 2016.

 Foi em Belo Horizonte, no ano de 1975, que os acontecimentos que vou relatar me alcançaram.

(Continua na próxima semana)

LETTERS TO MY DAUGHTER

I

Dear Juliana,
Today, the day dawned with an ugly weather, like rain, a wind colder than yesterday, a sky covered with dark clouds. It looks like we’re going to have a rainy day. It doesn’t even look like Christmas Eve. Because on Christmas Eve it should be a beautiful day, don’t you think? Isn’t it true that people are happier at Christmas? So, there is no reason why the day is sad. The day before Christmas should be joyful as everyone should be joyful on Christmas Eve. If they are not happy, how can they welcome Santa Claus with smiles, Christmas music, tropical and oriental fruits and effusive hugs? If they are not happy, how can they exchange gifts, celebrate supper and drink sparkling wine? But it seems that today, Ju, the day will be ugly, the weather will be ugly and, I’m afraid, Christmas could also be ugly.
What will an ugly Christmas be like? It is not very difficult to imagine a Christmas without beauty and without joy. It is enough that we leave aside the thought of what our Christmas is like, year after year, as a family, to imagine a day like all the others, with the difference of being Christmas, too, for those who have no family.
For those who do not have a family, Christmas day dawns, happens and falls simply as a day like all other days, of a life lived without a family. Upon waking up, for those who have no family, it makes no difference whether the day is clear or not, whether the sky is blue or dark with clouds. Whether it rains or not, the only noticeable difference is whether or not it is wet. As for the rest, the day is always a day like the others, even if it’s Christmas.
For those who have no family, it doesn’t matter if the stores are full or empty of customers, prices are cheap or expensive, there is to be no burning and sale of stocks, national or imported products, promotions, discounts, gifts or prize draws through coupons , advertisements on pamphlets, newspapers, magazines or billboards.
For those who do not have a family, a kilo of nuts is a kilo of nothing, with no one to share on Christmas Eve or during supper, which is also not supper because it will not exist. And panettone, a cake that is prepared only for Christmas, has no meaning, for those who have no family, even though it originated in Milan, in Northern Italy, more than a thousand years ago. For those who do not have a family, it is as good to make one as to be a thousand years old.
For those who have no family, Juliana, there is no bond of feelings that connects them to someone in a more intimate way. There are friends, some friends, a few, because life seems shorter for those who are not in family and does not allow them to snatch many. The loves, then, are scarcer, in lesser number and quantity, and even the quality never counts, because, for those without family, no love they had remained long enough to become a family.
Today, the day dawned with an ugly weather, like rain, a wind colder than yesterday, a sky covered with dark clouds. And I, while watching the sky through my bedroom window, imagine how different and good and beautiful that day would be if you were here, with your family.
Daddy’s longing kisses

CARTAS A MINHA FILHA

I

Querida Juliana,

Hoje, o dia amanheceu com um tempo feio, com jeito de chuva, um vento mais frio que ontem, um céu coberto de nuvens escuras. Parece que teremos mesmo um dia chuvoso. Nem parece véspera de Natal. Pois na véspera do Natal o dia deveria ser lindo, não acha? Não é verdade que as pessoas estão mais alegres, no Natal? Então, não há nenhum motivo para que o dia seja triste. O dia da véspera do Natal deverá ser alegre como todas as pessoas deverão ser alegres na véspera do Natal. Se não estiverem alegres, como poderão receber Papai Noel com sorrisos, músicas natalinas, frutas tropicais e orientais e abraços efusivos? Se não estiverem alegres, como poderão trocar presentes, celebrar a ceia e tomar espumantes? Mas parece que hoje, Ju, o dia será feio, o clima será feio e, tenho receio, o Natal também poderá ser  feio.

Como será um Natal feio? Não é muito difícil imaginar um Natal sem beleza e sem alegria. Basta que deixemos de lado o pensamento de como é o nosso Natal, ano após ano, em família, para imaginarmos um dia como todos os outros, com a diferença de ser Natal, também, para os que não têm família.

Para quem não tem família, o dia de Natal amanhece, acontece e anoitece simplesmente como um dia igual a todos os outros dias, de uma vida vivida sem família. Ao acordar, para quem não tem família, não faz diferença se o dia é claro ou não, se o céu é azul ou escuro cheio de nuvens. Se chove ou não chove, a única diferença perceptível é o fato de estar ou não estar molhado. Quanto ao mais, o dia é sempre um dia como os demais, mesmo sendo Natal.

Para quem não tem família não importa as lojas estarem cheias ou vazias de clientes, os preços serem baratos ou caros, haver ou não haver queima e saldão de estoques, produtos nacionais ou importados, promoções, descontos, brindes ou sorteios de prêmios através de cupons, anúncios em panfletos, jornais, revistas ou outdoor.

Para quem não tem família um quilo de nozes é um quilo de nada, sem ter com quem dividir na noite de Natal ou durante a ceia, que também não é ceia porque não existirá. E o panetone, um bolo que é preparado somente para o Natal, não tem nenhum sentido, para quem não tem família, mesmo tendo sua origem em Milão, no Norte da Itália, há mais de mil anos. Para quem não tem família tanto faz fazer um como fazer mil anos.

Para quem não tem família, Juliana, não existe nenhum laço de sentimentos que os ligue a alguém de forma mais íntima. Há os amigos, alguns amigos, uns poucos, porque a vida parece mais curta para os que não em família e não lhes permite arrebatar muitos. Os amores, então, são mais escassos, em menor número e quantidade, e até a qualidade nunca conta, pois, para os que não tem família, nenhum amor que tiveram permaneceu  o tempo suficiente para virar família.

Hoje, o dia amanheceu com um tempo feio, com jeito de chuva, um vento mais frio que ontem, um céu coberto de nuvens escuras. E eu, enquanto observo o céu pela janela do meu quarto, imagino o quanto seria diferente e bom e lindo esse dia se você estivesse aqui, junto à sua família.

Beijos saudosos do Papai

THE WELL-TE-VIS, THE GARDEN OF THE GARDEN OF THE HOSPITAL VERA CRUZ AND MY HEART SAFENADO

It was early evening on May 25, 2010 and he had entered Baeta’s van at Praça Sete. We were passing by Praça Raul Soares when the pain caught me firm, strong, very strong, frightening. At first, I thought it was the result of my Hiatus Hernia, which when it resolves to hurt really hurts, bothering a lot but passing with a little time, after some burping. But not. This time the pain was different. Stronger, thinner, more centered in the middle of the chest.
 What really scared me was the sweating, the cold sweat that soaked my clothes. Cold sweat meant something more serious. The heart, for sure. What was found that night, at the IPSEMG Hospital, where I was admitted and sent to the UCO.
 Nine days of hospitalization. Specialized exams, catheterization at Luxembourg Hospital and diagnosis: definition by cardiac surgery. Saphenous bridges. Indication of Vera Cruz Hospital. Hospital discharge to wait at home. A break to talk to the family, get things right and do preoperative exams. An examination truck. And, above all, a time for reflection and overcoming the fear that affects every person in the process of operating the heart. It wouldn’t be different with me.
On June 29 at 10 am I entered the Vera Cruz Hospital, being sent to room 304 of the Infirmary, where Paul, a master chef, was already waiting to have knee surgery, which happened that day. The night Paul was discharged and I stayed there, alone, waiting for the preparations for the surgery to be done the next day. Adriano was my companion that night.
On the morning of June 29, I received three bypass surgery and a breast implant through surgery performed by Dr. Eduardo Rocha’s medical team, waking up the afternoon at the ICU, intubated, scared, not understanding anything that had happened to me, not even what my sons Adolfo, Zezé and Adriano did it there, watching me. Three days later I left the CTI and was taken to the Infirmary, back to room 304 from where I had left to be operated on.
On the first night the company of Diego, a young man who had been operated on for acute appendicitis. He left the next day. I then received the company of Mr. Amandio, an official at the State School “Barão de Macaúbas”, who had undergone an angioplasty. He was discharged a day later, when Mr. Dalmir arrived from the ICU, where he had been for a few days treating a lung infection. He was my companion for longer than the others. Policeman already retired. Good fellow. Good chat. Intelligent and optimistic. Owner of an unshakable faith in God. I was discharged and left Vera Cruz before him.
But, where do Bem-Te-Vis and Gavião enter? Ah, yes, the Bem-Te-Vis entered the story on my first morning back to room 304, when they woke me up singing happily, in the tree in front of my window.
I saw them, bouncing, flapping their wings. The male chanting his three-syllable song “bem-te-vi” while the female just echoed the “viiiiiiii”.
Over and over again over the next two days I saw them there, playing in the tree, singing, coming and going, disappearing and reappearing from nowhere. In the space formed by the window, I saw them as if dating, probably building a nest.
The third day, dawn was different, silent, quiet, something was missing. I struggled to understand. The Bem-Te-Vis did not appear, did not sing, did not play, did not date.
 In the sky, circling alone, a huge, sovereign Hawk watched everything from above, occasionally sweeping over the tree where the Bem-Te-Vis should be.
I tried to see them, uselessly, in my small space of vision. All that remained for me to do was enjoy the lonely flight of that hawk, which, however much I tried to understand, should not be there, occupying alone that sky so beautiful, so clear and so blue, seen from the window of room 304 of the Hospital Infirmary. Vera Cruz. From where, before, I saw and heard a couple of enamored and charming Bem-te-vis.

OS BEM-TE-VIS, O GAVIÃO DO JARDIM DO HOSPITAL VERA CRUZ E O MEU CORAÇÃO SAFENADO

Era começo de noite de 25 de maio de 2010 e havia entrado na van do Baeta na Praça Sete. Estávamos passando pela Praça Raul Soares quando a dor me pegou firme, forte, muito forte, assustadora. A principio, pensei que fosse resultante da minha Hérnia de Hiato, que quando  resolve doer dói de fato, incomodando muito mas passando com um pouco de tempo, após alguns arrotos. Mas não. Desta vez a dor estava diferente. Mais forte, mais fina, mais centrada no meio do peito.

 O que me assustou mesmo foi a sudorese, o suor frio que empapava a minha roupa. Suor frio significava algo mais sério. O coração, com toda a certeza. O que ficou constatado ainda naquela noite, no Hospital do IPSEMG, onde fui internado e encaminhado para a UCO.

 Nove dias de internação. Exames especializados, cateterismo no Hospital Luxemburgo e o diagnóstico: definição por  cirurgia cardíaca. Pontes de safena.  Indicação do Hospital Vera Cruz.  Alta hospitalar para aguardar em  casa. Um intervalo para conversar com a família, acertar as coisas e fazer exames pré-operatórios. Um caminhão de exames. E, sobretudo, um tempo para  reflexão e superação do medo que acomete toda pessoa em vias de operar o coração. Comigo não seria diferente.

Em 29 de junho as 10 horas dei entrada no Hospital Vera Cruz, sendo encaminhado ao quarto 304 da Enfermaria, onde já estava o Paul, um mestre cuca, aguardando para fazer uma cirurgia no joelho, o que aconteceu ainda naquele dia. A noite Paul teve alta e fiquei lá, sozinho, aguardando os preparativos para a cirurgia a ser feita no dia seguinte. O Adriano foi o meu acompanhante naquela noite. 

Na manhã de 29 de junho recebi três pontes de safena e uma mamária através de cirurgia feita pela equipe médica do Doutor Eduardo Rocha, acordando a tarde no CTI, entubado, assustado, não entendendo nada do que me acontecera, nem mesmo o que os meus filhos Adolfo, Zezé e Adriano faziam ali,  me observando. Três dias depois deixei o CTI e fui levado para a Enfermaria, de volta ao quarto 304 de onde saíra para ser operado.

Na primeira noite a companhia do Diego, um jovem que havia sido operado de apendicite aguda. Saiu no dia seguinte. Recebi, então, a companhia do senhor Amandio, funcionário da Escola Estadual “Barão de Macaúbas”,  que tinha feito uma angioplastia. Teve alta um dia depois, quando chegou o senhor  Dalmir, vindo do CTI, onde estivera por uns dias tratando de uma infecção pulmonar. Foi o meu companheiro por mais tempo que os demais. Policial já reformado. Bom companheiro. Bom de papo. Inteligente e otimista. Dono de uma fé em Deus inabalável. Tive alta e deixei o Vera Cruz antes dele.

Mas, e  onde entram os Bem-Te-Vis e o Gavião? Ah, sim,  os  Bem-Te-Vis entraram na história na minha primeira manhã de volta ao quarto 304, quando me acordaram cantando felizes, na árvore em  frente a minha janela.

Eu os vi, saltitantes, abanando as asas. O macho entoando seu canto trissilábico “bem-te-vi” enquanto a fêmea apenas fazia ecoar o “viiiiiiii”.

Durante várias vezes nos dois dias seguintes eu os vi lá, brincando na árvore, cantando, indo e vindo, sumindo e reaparecendo do nada. No espaço formado pela janela eu os via como que namorando, na certa construindo um ninho.

O  terceiro dia, amanheceu diferente, silencioso, quieto, faltando alguma coisa. Custei para entender. Os Bem-Te-Vis não apareceram, não cantaram, não brincaram, não namoraram.

 No céu, volteando sozinho, um Gavião, enorme, soberano, observava tudo  lá do alto, vez por outra dando um vôo rasante sobre a árvore onde deveriam estar os Bem-Te-Vis.

Procurei vê-los, inutilmente, no meu pequeno espaço de visão. Restou-m, para apreciar, apenas o vôo solitário daquele gavião que, por mais que eu tentasse entender, não deveria estar alí, ocupando sozinho aquele céu tão lindo, tão claro e tão azul, visto da janela do quarto 304 da Enfermaria do Hospital Vera Cruz. De onde, antes, eu via e ouvia um casal de enamorados e encantadores Bem-te-vis.

WHEN I’M WITH YOU

Casal, Segurando As Mãos, Andar, Amor

When I’m with you,
I like to walk outside the street,
leaving it in the corner,
protected.
I like to put my shirt on your shoulders so you don’t feel cold
  while walking in the night,
  under the stars.
I like to open the door
so that you pass first
and I like to see you pass by me.
I like to give you the arm
when is jumping
  on a bad floor.
  I like to treat you like a lady,
a princess, a woman …
and to dream it mine
woman.

I like to feel her unique
  and just having eyes to see it and
  to say: you are beautiful,
  a beautiful child !!!!
As you can see,
  I’m really getting older and older.
And older and older.
Ah, how I like you.

QUANDO ESTOU COM VOCÊ

Casal, Segurando As Mãos, Andar, Amor

Quando estou com você,

gosto de andar  do lado de fora da rua,

deixando-a no canto,

protegida.

Gosto de colocar a minha blusa  em seus ombros para que não sinta frio

 enquanto caminha na noite,

 sob as estrelas.

Eu gosto de abrir a porta

para que você  passe primeiro

e gosto de vê-la passar por mim.

Eu gosto de lhe dar o braço

quando está de salto

 em um piso  ruim de andar.

 Eu gosto de tratá-la como uma dama,

uma princesa, uma mulher…

e de sonhá-la  minha

mulher.


Eu gosto de senti-la única

 e de só ter olhos para vê-la e

 de dizer: você é linda,

 uma criança linda!!!!

Como pode ver,

 estou mesmo ficando cada vez mais velho.

E cada vez mais antigo.

Ah, como eu gosto de você.