OPERAÇÃO MUTUM – Introdução

                INTRODUÇÃO

(1º Episódio)

Embora fosse uma quarta-feira muito especial, o 31 de agosto de 2016 em nada parecia diferente de um dia comum de quarta-feira. O comércio abrira suas portas e funcionou normalmente, o trânsito era complicado como em todas as quartas-feiras e as ruas apresentavam-se cheias de gente indo e vindo, agitadas.

Em Belo Horizonte, onde eu me encontrava, da janela do apartamento no décimo andar do prédio em que moro, fiquei por um longo tempo observando o ir e vir das pessoas lá embaixo, achatadas,  como eram vistas de cima para baixo. Meu campo de visão alcançava as esquinas de Caetés com Amazonas e Bahia, uma parte de Avenida dos Andradas e um pedacinho de Praça 7, um pouco mais distante. Podia, também, ouvir o pipocar de foguetes que explodiam por todo o centro da cidade e alguns bairros próximos. Além do buzinaço provocado pelos carros que circulavam. E, naturalmente, os gritos de “Fora Dilma” e “É golpe”. Vez por outra uns palavrões também podiam ser ouvidos.

Na sala onde me encontrava, a televisão alternava  comentários de especialistas, analistas, políticos e gente do povo, gente comum, sobre o final do processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff. A sessão de julgamento da Presidente, iniciada na quinta-feira, dia 25, tinha sido encerrada nessa quarta-feira, às 13h35, quando sessenta e um senadores concluíram pela sua culpabilidade perante as acusações que lhe haviam sido feitas e, consequentemente, pela cassação de seu mandato. Vinte senadores votaram contra. Estava, dessa forma, encerrado o governo do PT, iniciado com a eleição de Lula, empossado em 1º de janeiro de 2003, sucedendo a Fernando Henrique Cardoso, do PSDB.

Em lugar da Presidente Dilma assumiu, nesse mesmo dia, o seu Vice-Presidente Michel Temer, do PMDB. Sentado frente à TV fiquei pensando em como, novamente, eu assistia a mais uma mudança radical na História do Brasil.

Sem ter nada de mais importante para fazer do que ficar ali, ouvindo os noticiários da TV, senti curiosidade em saber mais sobre os presidentes do Brasil, principalmente como terminaram os seus governos. Liguei o computador e me dispus a pesquisar na Internet, o governo de cada um, desde o primeiro até o último, o de Dilma, que acabara de ver terminar.

O primeiro fora o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, nascido em Alagoas da Lagoa do Sul, hoje Marechal Deodoro (AL), que proclamou a República e governou de 15/11/1889 a 23/11/1891, quando renunciou ao mandato. Foi sucedido por Floriano Vieira Peixoto, nascido em Maceió (AL) que ficou no poder de 23/111891 a 15/11/1894. Os demais presidentes foram Prudente José de Morais Barros, nascido em Itu (SP), de 15/11/1894 a 15/11/1898. Manuel Ferraz de Campos Sales, nascido em Campinas (SP), de 15/11/1898 a 15/11/1902. Francisco de Paula Rodrigues Alves, nascido em Guaratinguetá (SP), de 15/11/1902 a 15/11/1906. Afonso Augusto Moreira Pena, nascido em Santa Bárbara (MG), de 15/11/1906 a 14/07/1909, quando faleceu no exercício do mandato. Nilo Procópio Peçanha, nascido em Campos dos Goytacazes (RJ), de 14/07/1909 a 15/11/1910. Hermes Rodrigues da Fonseca, nascido em São Gabriel (RS), de 15/11/1910 a 15/11/1914. Venceslau Brás Pereira Gomes, nascido em Itajubá (MG), de 15/11/1914 a 15/11/1918. . Francisco de Paula Rodrigues Alves, eleito para iniciar o mandato em 15/11/1918 faleceu em 16/01/1919 sem assumir o cargo. Delfim Moreira da Costa Ribeiro, nascido em Cristina (MG), de 15/11/1918 a 28/07/1919. Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa, nascido em Umbuzeiro (PB), de 28/07/1919 a 15/11/1922. Artur da Silva Bernardes, nascido em Viçosa (MG), de 15/11/1922 a 15/11/1926. Washington Luís Pereira de Sousa, nascido em Macaé (RJ), de 15/11/1926 a 24/10/1930, quando foi deposto. Júlio Prestes de Albuquerque, nascido em Itapetininga (SP) eleito para iniciar o mandato em 15/11/1930 não chegou a assumir, tendo sido o único presidente eleito pelo voto direto no Brasil a ser impedido de tomar posse. Junta Governativa Provisória de 1930, formada por General Augusto Tasso Fragoso, nascido em São Luís (MA), Almirante José Isaías de Noronha, nascido no Rio de Janeiro (RJ) João de Deus Mena Barreto, nascido no Rio de Janeiro (RJ), de 24/10/1930 a 03/11/1930.  Getúlio Dornelles Vargas, nascido em São Borja (RS), de 03/11/1930 a 29/10/1945, tendo sido presidente provisório de 1930 a 1934, presidente constitucional de 1934 a 1937  e presidente ditador de 1937 até  29/10/1945, quando foi deposto do cargo. José Linhares, nascido em Guaramiranga (CE), de 29/10/1945 a 31/01/1946.   Eurico Gaspar Dutra, nascido em Cuiabá (MT)de31/01/1946 a 31/01/1951. Getúlio Dorneles Vargas de 31/01/1951 a 24/08/1954. João Fernandes Campos Café Filho, nascido em Natal (RN), de 24/08/1954 a 8/11/1955, quando foi deposto. Carlos Coimbra da Luz, nascido em Três Corações (MG), de 08/11/1955 a 11/11/1955. Assumiu a Presidência da República por ser o Presidente da Câmara dos Deputados, em razão do afastamento do Presidente Café Filho ( Vice-Presidente de Getúlio Vargas, havia assumido o governo após o seu suicídio), tendo sofrido impeachment pelo Congresso Nacional. Em seu lugar assumiu o 1º Vice-presidente do Senado FederalNereu de Oliveira Ramos, nascido em São José dos Pinhais (SC)  de 11/11/1955 a 31/01/1956. Juscelino Kubitschek de Oliveira, nascido em Diamantina (MG) de 31/01/1956 a 31/01/1961. Jânio da Silva Quadros, nascido em Campo Grande (MT) de 31/01/1961 a 25/08/1961. Pascoal Ranieri Mazzilli, nascido em Caconde (SP) de 25/08/1961 a 07/09/1961,  após a renúncia do titular Jânio Quadros, e durante a ausência do vice-presidente João Goulart, que estava em visita oficial à República Popular da China. João Belchior Marques Goulart, nascido em São Borja (RS)  de  07/07/1961 a  01/04/1964, quando foi deposto pelo Golpe Militar de 1964. Pascoal Ranieri Mazzilli de 02/04/1964 a 15/04/1964.  Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, nascido em Fortaleza, de 15/04/1964 a 15/03/1967. Marechal Artur da Costa e Silva, nascido em Taquari (RS) de 15/03/1967 a 31/08/1969, quando afastou-se da chefia do governo por motivo de doença . Junta Governativa Provisória de 1969 ( formada por General Aurélio de Lira Tavares, Ministro do Exército, nascido em João Pessoa (PB),
Almirante Augusto Hamann Rademaker Grünewald,  Ministro da Marinha, nascido no Rio de Janeiro (RJ) e
Márcio de Souza Mello, Ministro da Aeronáutica, nascido em Florianópolis (SC)) de 31/08/1969 a  30/10/1969. General Emilio Garrastazu Medici, nascido em Bagé (RS), de 30/10/1969 a 15/03/1974.  General Ernesto Beckmann Geisel, nascido em Bento Gonçalves (RS), de 15/03/1974 a 15/03/1979. General João Baptista de Oliveira Figueiredo, nascido no Rio de Janeiro (RJ), de 15/03/1979 a 15/03/1985. Tancredo de Almeida Neves, nascido em São João Del-Rei (MG).Eleito, não chegou a assumir o mandato. José Sarney de Araújo Costa (José Ribamar Ferreira de Araújo Costa), nascido em Pinheiro (MA), de 15/03/1985 a 15/03/1990. Fernando Affonso Collor de Mello, nascido no Rio de Janeiro (RJ), de 15/03/1990 a 29/12/1992, quando teve o seu impeachment aprovado pelo Senado Federal. Itamar Augusto Cautiero Franco, nasceu a bordo de um navio na rota Salvador/Rio de Janeiro e teve o seu Registro de Nascimento feito em Salvador (BA), de 29/12/1992 a 01/01/1995.  Fernando Henrique Cardoso, nascido no Rio de Janeiro, de01/01/1995 a 01/01/2003 – Luiz Inácio Lula da Silva (Luiz Inácio da Silva), nascido em Caetés (PE), de 01/01/2003 a 01/01/2011 – Dilma Vana Rousseff, nascida em Belo Horizonte (MG), de 01/01/2011 – 31/08/2016 – e, agora, Michel Miguel Elias Temer Lulia, nascido em Tietê (SP).

Estou ficando velho, pensei. Do dia em que nasci, até hoje, já aconteceram vinte e cinco presidentes.

Quando conclui meu pensamento, tive minha atenção despertada para uma estranha coincidência. O primeiro dos presidentes da minha época, Getúlio Vargas, foi impedido de terminar o seu mandato no período conhecido como Ditadura do Estado Novo, exatamente no dia em que nasci, 29 de outubro de 1945, deposto pelo Alto Comando do Exército. A última presidente eleita foi Dilma, também impedida de terminar o seu segundo mandato, tendo o seu processo de impeachment votado e aprovado pelo Senado Federal.

Dediquei o resto da tarde e uma boa parte da noite ao acompanhamento das repercussões da cassação da Presidente Dilma, posse do Vice-Presidente Temer, agora Presidente e manifestações a favor e contra o impeachment.  Quando desliguei a TV e resolvi que já era hora de ir dormir, passava de duas horas da madrugada. 

Não tive um sono tranquilo. Custei muito para pegar no sono, acordei várias vezes agitado e tive sonhos não muito agradáveis. O dia havia sido muito diferente da minha rotina.

Às seis da manhã, acordei assustado e, num pulo, sentei-me na cama. Em meus ouvidos ainda ressoavam as palavras que eu tinha ouvido, durante o meu sono e que me fizeram acordar. Imediatamente as identifiquei como sendo ditas por Manfredo Kurt que tinha gritado com sua voz rouca e seu português com sotaque germanizado  “E o livro, porra. Não vai escrever mais não, seu bosta?”

Completamente desperto, levantei-me e me dirigi para o banheiro enquanto dizia baixinho “Calma, Alemão. Vou escrever, sim. Começo ainda hoje. Não precisa vir me assombrar. Pode continuar descansando em paz”.

(Continua na próxima semana)

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